Quando o amor não aceita pressa


 “Você precisa se casar!!!”

A frase ecoa como uma ordem disfarçada de conselho. Como se a vida tivesse um cronograma único, uma fila invisível onde todos devem chegar ao mesmo destino no mesmo horário.

Mas eu nunca soube escolher pelas aparências. Nunca me apressei por obrigação. Meu interesse sempre esteve naquilo que não grita: na vida sentida com calma, nas músicas clássicas que preenchem o silêncio, nas artes que não explicam — apenas tocam. Nos poemas delicados e misteriosos, nos livros de histórias medievais, nas borboletas que se tornaram raras, nas nuvens de tardes nubladas. Tudo isso sempre me encantou mais do que qualquer pressa.

Encanta-me alguém que sorri com os olhos. Uma criança que sorri sem motivo. Um botão de flor prestes a abrir. Uma gata guiando seus filhotes no asfalto às três da tarde.

E foi assim, sem aviso, que Bach entrou na cena. Prelúdios lentos.

Ao ouvi-los, imaginei um salão amplo, clássico, elegante. Um piano no canto, alguém tocando com delicadeza. Havia comidas sofisticadas sobre mesas discretas — canapés, queijos cortados com precisão, tudo no tempo certo, sem exageros.

Então vi meu reflexo no espelho. Vestia um azul claro — quase serenidade. O vestido tinha mangas delicadas, bordados sutis de flores, elegância sem ostentação. O cabelo cacheado caía naturalmente, como se também dançasse. Nos pés, um salto prateado, acompanhado por uma tiara discreta. Alguém se aproximou. Um jovem cavalheiro. Traje preto, gravata da mesma cor do meu vestido. Os cabelos escuros, bem cuidados. Não sabia descrever seu rosto — bastou perceber sua presença, seu sorriso e seus olhos castanhos. Ele me convidou para dançar.

Aceitei.

Os passos começaram lentos. Seguros. Harmoniosos. Cada movimento trazia alegria, mas também calma. Nada era forçado. Nada era urgente. Era como se o tempo tivesse aprendido a respeitar aquele instante.

E ali, dançando, compreendi algo essencial: o sentimento que eu buscava em alguém era o mesmo que sempre tive pela vida.

Inteiro. Sereno. Sem pressa.

Talvez o amor exista assim — não como resposta a cobranças, mas como encontro. E talvez ele só aconteça quando entende que alguns corações não

sabem correr.

Eles sabem dançar. 

Clara Inez Guimarães 

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